Cães podem sentir inveja? O que dizem os estudos comportamentais

Imagine a cena: você está sentado no sofá com seus dois parceiros, um Golden Retriever chamado Bento e uma pequena Jack Russell, a Pipoca. Você pede que ambos deem a pata. Bento obedece prontamente e ganha um pedaço generoso de peito de frango. Pipoca, vendo a recompensa do irmão, repete o gesto com entusiasmo, mas você, por um descuido ou apenas para testar, não lhe dá nada. O que acontece a seguir não é apenas uma “carinha de triste”. Pipoca hesita, olha para o Bento, olha para a sua mão e, na próxima vez que você pedir a pata, ela provavelmente ignorará o comando ou desviará o olhar. Quem convive com mais de um cão em casa jura que eles sentem inveja. E, para a surpresa de muitos céticos, a ciência começou a dar razão aos tutores.

O experimento que mudou nossa visão Diferente do que pensávamos há algumas décadas, quando os animais eram vistos quase como máquinas de instinto, estudos comportamentais profundos — como os realizados pela pesquisadora Friederike Range, na Universidade de Viena — revelaram que os cães possuem um senso rudimentar, mas claro, de justiça. No famoso “teste da pata”, os pesquisadores colocaram dois cães lado a lado realizando a mesma tarefa. Enquanto ambos recebiam recompensas, tudo fluía bem. O problema surgia quando um dos cães continuava recebendo um prêmio (como um pedaço de salsicha) e o outro passava a ser ignorado. O cão “injustiçado” não apenas parava de cooperar muito mais rápido, como demonstrava sinais claros de estresse, como lamber o focinho, bocejar e evitar contato visual com o experimentador.

O ponto fascinante aqui é a especificidade: os cães não se importavam se o colega ganhava uma recompensa melhor (uma salsicha contra um pedaço de pão). O que gerava a reação de “inveja” — ou, tecnicamente falando, a aversão à desigualdade — era o fato de um ganhar algo enquanto o outro não ganhava nada pelo mesmo esforço. Inveja ou apenas autopreservação social? Precisamos ter cuidado para não antropomorfizar demais. A inveja humana é complexa, envolve status, desejo de posse e, muitas vezes, rancor. No universo canino, esse sentimento está mais ligado à manutenção de recursos e à leitura do ambiente social. Raças extremamente conectadas ao dono e com alto nível de inteligência de trabalho, como o Border Collie e o Pastor Alemão, tendem a ser mais sensíveis a essas variações de tratamento.

dna do animal

Na rotina clínica, vejo muito isso em casos de “ansiedade de separação” ou agressividade redirecionada quando um novo filhote chega à casa. O cão mais velho não está necessariamente planejando uma vingança, mas ele percebe que a distribuição de atenção e petiscos mudou drasticamente. Atenção dividida: Se você acaricia um, o outro invariavelmente coloca a cabeça por baixo da sua mão. Aversão ao vácuo: O cão que se sente negligenciado pode começar a apresentar comportamentos destrutivos apenas para forçar uma interação, mesmo que seja uma bronca. O olhar lateral: Aquele olhar de “baleia” (onde o branco dos olhos aparece) quando o outro pet está no colo do tutor.